FERNANDO MENDES

“(...) Fernando Mendes começou o que ele chama de “uma marcenaria de verdade” com o que tinha em casa: um mínimo de ferramentas, uma máquina ou outra. Herdou as ferramentas importadas de um tio, começou a trabalhar e mexer com madeira. Tinha um quartinho dentro do seu apartamento e lá construiu uma bancada de serra, de marcenaria, com armários. Começou a ler livros sobre o assunto, gostava do tema. Passou a encomendar livros sobre marcenaria na internet e foi lendo um atrás do outro, sobretudo os americanos. No começo, fazia várias peças em casa, como berços, painéis, mas era ainda um hobby.

Um dia toda essa leitura fez sentido. Começou a fabricar na sua pequena oficina peças para Sergio Rodrigues. A primeira foi uma banqueta Moleca, uma versão desmontável da poltrona Mole. E foi pegando pedidos e fabricando os móveis.

Depois de algum tempo fazendo muitos projetos e acompanhando obras, Fernando percebeu que o momento em que se despedia do cliente era aquele que mais o interessava. Claro, era onde começava o trabalho de marcenaria e mobiliário. Fernando entendeu que até então vinha investindo no “momento” errado.

Agora, mais que nunca, com a nova parceria com Sergio Rodrigues, Fernando Mendes põe em prática o seu sonho de “criar e fazer”. “Para mim há uma ligação indissociável entre o criar e o fazer. Na nossa cultura, em geral, a criação tem um status mais elevado, e o trabalho manufaturado é coisa de segunda categoria. Em O Artífice, de Richard Sennett, ele desmonta essa idéia de que se tem uma coisa sobre a outra. Diz que é uma idéia equivocada. A inteligência muitas vezes é construída pelo uso das mãos porque desenvolve o cérebro, os sistemas, o pensamento.”

Para Fernando o conhecimento de como fazer é parte de saber projetar. “Se um dia eu fizer uma peça de ferro, vou ter que visitar uma serralheria para saber como se corta, como se dobra, qual máquina será usada, etc. Às vezes o sujeito pensa a parte plástica, mas não sabe como é fabricada a peça, então, a solução de encaixe, de proporção, pode ser equivocada. Se você pegar o braço de uma cadeira Oscar, que é super delicada, cheia de nuances, de cor, de relevo, de entalhe, tem toda uma complexidade de marcenaria... Quem sabe fazer consegue imaginar como aquilo vai se desenvolver em cada máquina.”

O garoto que um dia se encantou com o desenho e o dom de Sergio Rodrigues, hoje, mergulhado nas formas e possibilidades da madeira, criou seu próprio estilo baseado, sobretudo, no talento de designer e na paixão pelo ofício que compartilha com o mestre.”

Regina Zappa, jornalista carioca

 

"Esta exposição, que se caracteriza mais pela qualidade do que pela quantidade, pois é resultado de uma produção artesanal, revela um autor preocupado em estabelecer o diálogo entre a tradição e a modernidade, entre o respeito às velhas técnicas construtivas, que ele domina, e o arrojo da concepção, que ele pratica como opção “Meu trabalho sempre teve uma ligação estreita com o fazer da marcenaria”, ele explica. O uso do encaixe e a excelência do acabamento são mostras disso, sem falar no trabalho de lixar todas as peças à mão.

Autodefinindo-se como designer-marceneiro, ou artífice, Fernando Mendes confessa: “o próprio fazer da marcenaria me inspira”. De fato, a madeira não é apenas a matéria prima com que ele cria beleza e funcionalidade; ela é também sua musa inspiradora, antecipando-se às vezes ao desenho, que em geral vem antes. O amor a um material que está na origem do país a que deu nome se manifesta pelo respeito com que o trata, adotando a transparência como estética e as imperfeições, os “defeitos”, como atributos. Aqui, não se procura escamotear os nós, os veios, as estrias, a textura irregular. Ao contrário, eles são expostos.

Chama a atenção também nas cadeiras, poltronas e mesas de Fernando o fato de não terem quinas, pontas, nem arestas. Os ângulos retos são suavizados pelos contornos e pelo arredondado das formas. É como se ele quisesse citar Oscar Niemeyer, que dizia: “não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível. O que me atrai é a curva livre e sensual”. Também a sua idéia de não ser o “criador absoluto”, e sim de incorporar o acaso e os erros ao processo de elaboração, faz lembrar a “contribuição milionária de todos os erros”, de Oswald de Andrade.

Não por acaso, a peça de que ele mais gosta é a bela “Cadeira Santos Dumont”, com a qual quis “homenagear o inventor do avião e nosso primeiro designer”. Fernando avança sem deixar de olhar para trás."

Zuenir Ventura, escritor, jornalista e ex-professor da ESDI - Escola Superior de Desenho Industrial

 

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